
É meia noite de uma sexta-feira fria em São Paulo. Sinto um leve palpitar no peito ao pensar nele. Rabisquei alguns versinhos semana passada, mas não tive coragem de mostra-los a ele. Re-li cada conversa que tivemos, lembrei do nosso primeiro oi. E então uma lágrima cheia de pavor rolou pelo meu rosto gélido e sem expressão ao resgatar na memória aquelas palavras cortantes: “Você precisa me esquecer”. Bati a mão na cabeça com força e repetidas vezes disse a mim mesma:
- Idiota, idiota, idiota, idiota.
Busquei na garganta um grito rouco, e num instante de euforia misturada a dor, soltei ao vão do quarto um desesperado “Te odeio”. Rasguei a roupa de meu corpo, e me vi quase nua diante do espelho. A maquiagem borrada, cabelo despenteado, alguns hematomas meio disfarçados com blush e então eu ri de uma unha quebrada. Como eu fui tola de acreditar que pelo menos por hoje, eu iria dormir sem chorar, e sem me torturar por ser tão estúpida.
- Mas que droga, justo na véspera do meu aniversário, isso tinha mesmo que acontecer?
Taquei o copo ainda com um pouco de vinho no espelho, joguei-me ao chão e fiquei admirando meu reflexo quebrado nos cacos, uma ideia assombrosa me vem a mente… Como num impulso impensado pego um pedaço de espelho e começo a golpear-me devagar, vários furos se formam num dos braços, de onde surgem pequenas bolhas vermelhas. A dor é consideravelmente grande, mas ainda é nada comparada a dor que atravessa minha alma, o que faço a seguir é o suficiente para que eu seja trancafiada num hospício, pois é loucura, na sua forma mais crua e primária. Abro a janela, e olho para a rua estreita e deserta que se apresenta a mim lá embaixo. Estou no 14º andar, me arrepio da espinha até a nuca, o vento é congelante. O Telefone toca, mas não atendo, e então ouço aquela voz que soa tão indiferente dizer-me em meio a soluços:
- Perdoe-me querida, não posso mais voltar, sou um tolo e não mereço sequer tua atenção para me escutar, mas te imploro, não me odeie, sei que você está ai, por favor, fale comigo…
Sua voz começa a falhar, e cada vez com menos força ele continua seu discurso estupidamente desajeitado e angustiante:
- Sinto-me um completo idiota por tê-la magoado, mas preciso que você saiba que eu não fiz propositalmente, e a verdade querida, é que a confundi com tua prima, vocês duas são tão parecidas, e a luz fraca da lua sob um céu nublado era tudo o que clareava aquele terraço, onde eu havia lhe dito para me encontrar pontualmente as 22horas lembra? Pedi para que colocasse aquele vestido que você usou no nosso primeiro encontro. Eu, bobo, romântico, queria armar um cenário perfeito para te pedir em casamento, na véspera do teu aniversário. Eu comprei alianças, e colhi uma rosa do jardim de minha tia, que você tanto adorava admirar. E então eu peguei o carro de meu pai emprestado, atravessei a cidade e ao chegar na frente de seu apartamento, conferi a hora no relógio e subi de elevador até o terraço, e então lá estava você me esperando, incrivelmente linda. Seus cabelos soltos, voando. Mas como você estava de costas, decidi me aproximar a passos lentos para não denunciar minha chegada, a surpreendi com um abraço forte pelas costas, e a virei para mim num movimento rápido beijando-a logo em seguida. Foi aí que escutei meu nome ser pronunciado com raiva num grito rápido bem atrás de mim, assustado olhei e fiquei abismado com o que acabara de acontecer; eu havia acabado de beijar tua prima, pensando ser você. Mas que brincadeira de mal gosto, pedir a ela que se passasse por você para testar-me! Você julgava ser inconfundível, enchia-se de orgulho ao declarar para todos que eu jamais iria te confundir, por que eu era o único na face da terra que saberia identificar-te mesmo de olhos atados. Me vi num estado de fúria tão descontrolado que lancei a rosa e as alianças longe, disse coisas horríveis e saí correndo. Neguei escutar tuas explicações enjoativas tantas vezes já repetidas “é só uma brincadeirinha amor!” Dessa vez eu estava disposto a abandonar-te e pouco me importava se no dia seguinte seria teu aniversário. Liguei o carro e avancei velozmente pelas ruas, não prestei atenção nos faróis, tudo o que eu queria era chegar logo em casa. Senti uma dor terrível e em fração de segundos me vi capotando violentamente, um caminhão me atingiu bruscamente. Querida, você está ai? Eu sei que morrerei e só queria escutar pela última vez a tua voz… Eu te amo…
Eu estava paralisada ainda na janela, desacreditando em tudo que acabara de escutar, quando um silêncio assustador toma conta de tudo, a ligação é interrompida, e eu sei de uma forma sobrenatural que ele se foi para sempre… Não posso perdoar-me por ter sido tão idiota, eu o perdi, e perdi duas vezes, a primeira quando o fiz desistir de mim, e a segunda quando ele deu seu ultimo suspiro ansiando ouvir-me ao telefone com um “eu te amo” entorpecido num desespero sufocante, mas eu nada disse… Dou então um passo em direção ao nada, e nos segundos aflitos que me separam do chão, meus pensamentos se esvaziam e um sentimento de culpa toma conta de mim, foi a ultima coisa que pude sentir antes de beijar a morte. (RabisqueAPartitura)